Carta escrita por um ex-paciente dependente químico e enviada a um amigo internado. Ex-paciente do Instituto de Terapia Cognitiva, tratado pela Dra. Ana Maria Serra, com Terapia Cognitiva, de Agosto de 2009 a Julho de 2010. Hoje, é atendido eventualmente, quando são abordados temas atuais (trabalho, estudo, família, social, afetivo). A dependência química não é abordada desde Agosto de 2009.

“E aí, companheiro?

Iria perguntar se está tudo bem, mas seria ironia da minha parte.

Não vou dizer pra você palavras bonitas, e nem que é fácil sair desse mundo. E que você vai sair daí e vai nadar em um mar de rosas… Vamos ser realistas!

Vou ser breve sobre a minha história com a droga, para não ficar uma carta chata de ser lida… e toda dramática; porque, afinal de contas, eu não quero que alguém tenha pena de mim.

Então… Aos 12 anos eu comecei com a maconha, aos 15 eu usei cocaína.. e aos 17 eu me afundei no crack. Eu me afundei mesmo, cheguei ao fundo do poço. Vendi TV, vídeo game, bicicleta, tênis. Cheguei a vender o par de tênis que estava usando naquele momento! Blusas de frio, então, nem se fala… Roubava meu irmão, minha mãe…

Até que, naquela noite de 20 de dezembro de 2008, eu vendi minha TV às 4:00 da manhã. E me vi sentado no meu quintal, sem mais nada pra vender, com o quarto vazio, e resolvi dar o primeiro passo: pedir ajuda.

Na verdade, eu fui para a internação; não porque eu queria parar de usar, mas sim porque eu queria parar de sofrer…

Então fui internado no dia 22/12/2008 e passei o Natal, o Ano Novo e o Carnaval dentro daquela clínica.

Você está aí agora. Pode ter certeza, eu sei como é que é isso.

Eu queria estar com a minha família, queria poder abraçar todos eles na virada do ano, mas não podia. Mas, aos poucos, eu me acostumei com a clínica.

Só que, na clínica, era fácil não usar drogas: não tinha! Quando vim pra rua, de volta, tive 3 ou 4 recaídas. Mas isso não me desanimou. Era inevitável: eu era apaixonado pelo crack e pela cocaína.

Mas o que estava acontecendo? E o que eu havia aprendido depois de 3 meses internado?

Eu consegui ficar limpo, quando eu fui fazer terapia e ocupei minha cabeça. Eu chegava em casa ao fim da tarde, e aquela fissura me rasgava por dentro. Então eu fazia um chocolate ou um milk shake; e deitava na cama, assistia TV ou um desenho… E sabe do melhor? A fissura passava!

Sabe o que eu aprendi? Que a fissura, ela vem e passa. NINGUEM MORRE DE VONTADE! Esse era meu lema.

Então, toda vez que me dava vontade, eu partilhava, eu falava isso para alguém… E essa pessoa me levava para tomar um sorvete, para sair pro shopping, para qualquer lugar.

E hoje, eu estou levando a vida assim! Estou sem usar há 1 ano, 3 meses e 24 dias. E eu percebi que, mesmo com meu pai sendo um alcoólatra que batia na minha mãe quando eu era pequeno; mesmo tendo sofrido na infância, eu consegui virar o jogo, sabe? Consegui provar para aqueles vizinhos, que me chamavam de “nóia”, que eu consegui!

Mas, na verdade, a vitória, a maior vitória que eu consegui, foi provar para mim mesmo que eu era mais forte do que meu vício.

Meu amigo, há 2 anos atrás, eu estava em Guarulhos, descalço, com bolhas nos pés, com as calças rasgadas. Tinha virado a noite inteira pedindo dinheiro na rua para comprar mais crack, desorientado de tudo, sem vida.

Hoje eu estou trabalhando, tentando recuperar o tempo perdido. Voltei para a escola, e meu dinheiro eu gasto comigo. Você ainda vai saber o que é pegar um dinheiro com a mãe e ir tomar um sorvete, ir comprar uma camiseta, uma calça… Sem a necessidade de ficar contando moedas para comprar mais uma dose da sua droga de escolha.

Hey amigo, só depende de você! Fico feliz que o primeiro passo você já deu! Quem fica 1 dia limpo fica 1 ano! Quando você sair, procura uma terapia, procura um grupo de auto-ajuda…

Não vou desejar boa sorte pra você, porque sorte a gente deseja no jogo. O que eu desejo pra ti é sucesso na sua recuperação! Imagina que você está nascendo de novo. E aí, onde você está, é só um aprendizado, pra quando você sair. Pra mim, você já é um vencedor, só de ter pedido ajuda! Parabéns!!!

Vou ficando por aqui, com uma frase: ‘A dor é inevitável… o sofrimento é opcional’. Fica com Deus, amigo, (ou seu poder superior). Aproveite cada segundo aí dentro… Aqui fora não mudou nada…

Espero, um dia, você me encontrar na rua e me dizer: ‘hey… HOJE eu não usei…’! Isso já será uma vitória!

VOCÊ É UM MILAGRE! Eu acredito em você! Mas é preciso que você também acredite!

Abraço!!! FELIZ ANO NOVO!

Aproveite que o ano está começando e faça a diferença… Não para os outros… mas faça a diferença pra você!

Mais uma vez: fica com Deus! ‘A dor é inevitável… o sofrimento é opcional’ .”

(Enviada em 29/Dezembro/2010)

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Carta escrita por um ex-paciente dependente químico e enviada a um amigo internado.

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